Em Revolving Door, sexo e entretenimento aparecem ligados de forma irônica, por exemplo, na música inicial que remete à sonoridade de um carrossel e na montanha-russa que surge em meio à narrativa. Por que isso? E por que optaram pela animação?
Desde o começo do século 20, o subúrbio litorâneo de St. Kilda é conhecido pelos cinemas, clubes e parques da orla. Um dos ícones de St. Kilda é o parque de diversões Luna Park, onde está a montanha-russa que mostramos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o bairro foi um destino bastante popular entre soldados norte-americanos e australianos em busca de descanso e entretenimento. As áreas de trabalhadoras sexuais floresceram à medida que os soldados começaram a ser levados para “se divertir” nas imediações do parque. St. Kilda permaneceu como a “zona da luz vermelha” de Melbourne desde então; os clientes agora são levados para o estacionamento e ruas adjacentes ao Luna Park. Uma das razões pelas quais escolhemos utilizar animação foi por querermos oferecer aos participantes do projeto algum grau de anonimidade sem usar técnicas-clichê como mostrar apenas a silhueta, granular rostos, etc.

A prostituição em seus múltiplos aspectos é um assunto muito presente nos trabalhos de vocês. Por quê?
Alex – Comecei a trabalhar na indústria do sexo aos dezesseis anos. Revolving Door é basicamente a história da minha vida nas ruas de St. Kilda. A vida de todo o mundo é cheia de complexidades… Cheguei à Austrália aos catorze anos e fui azarada o suficiente para ficar sob custódia do Estado e permanecer trancada em um centro de detenção juvenil. Minhas memórias desse período são muito incompletas; essencialmente, eu não tinha família, não tinha dinheiro nem casa, então fui trabalhar nas ruas.
Depois de alguns anos entrando e saindo dessa vida, consegui me envolver em projetos de televisão comunitária e comecei a aprender como ser uma realizadora de filmes. Em 1990, decidi voltar às ruas para fazer um documentário sobre minhas experiências e foi aí que David e eu trabalhamos juntos pela primeira vez. Revolving Door foi um trabalho muito difícil para mim, já que é uma viagem extremamente pessoal: Gillian sempre foi meu “nome de guerra”.

Na série televisiva Red Light Girls, vocês dão à prostituição um tratamento notável, sem nada do tom sórdido ou obscuro que é freqüente quando a TV trata esse tema. Participar desse projeto contribuiu para as obras que vocês realizaram posteriormente sobre prostituição?
Na verdade, nós estabelecemos o tom de Red Light Girls. Alex foi procurada pela Granada [companhia britânica de televisão] para, inicialmente, pesquisar e desenvolver o roteiro das histórias australianas da série. Uma das paixões de Alex é desmistificar o trabalho sexual e mostrar que esse é apenas um trabalho, é parte da vida de alguém, e não sua vida inteira – há tanto estigma associado ao trabalho sexual que achamos importante romper estereótipos. Queríamos mostrar os personagens como pessoas, não como prostitutas; mostrar que o trabalho sexual é algo que elas fazem, e não algo que as define. Para isso, levamos muito tempo para encontrar as pessoas certas, mulheres que não fossem vítimas, de forma que esse não se tornasse um documentário sobre exploração. Essa abordagem foi tão bem-sucedida e inovadora que fomos enviados a Los Angeles para fazer o mesmo com os personagens norte-americanos da série. Adoraríamos fazer algo similar no Brasil.

Vocês estão casados há dezoito anos. Como seus diferentes interesses e linguagens se combinam no momento de planejar um novo projeto?
Nós nos consideramos muito afortunados pelo fato de trabalhar e viajar juntos tão bem! Fazemos nosso brainstorm e criamos juntos muito bem. Na verdade, temos habilidades complementares: David, com seu conhecimento formal da escola de filmagem, e Alex, com sua perspectiva singular do mundo e experiência prática. Entre nós, podemos trabalhar como uma equipe auto-suficiente, com habilidade para transitar entre todos os aspectos da produção, da criação à técnica. Somos uma equipe independente e ambos amamos viver de mala.

A prisão de Gillian em Revolving Door é uma recriação – um momento de ficção – dentro do documentário. Que relações vocês estabelecem entre documentário, ficção e animação?
A cena da prisão foi uma recriação, com a cooperação da polícia. Uma recriação de eventos reais – Alex foi presa em diversas ocasiões quando trabalhava nas ruas – e que serve para enfatizar o absurdo de uma situação que reforça a “síndrome da porta giratória”: os trabalhadores sexuais entram em um ciclo vicioso de dívidas, aprofundado pela imposição de multas pela polícia. Uma das razões pelas quais realizamos um documentário animado foi por querer tornar temas difíceis mais palatáveis ao público. Além disso, o documentário tem uma ingenuidade inerente, talvez deixe aberta a possibilidade de que a própria Gillian possa ter feito os desenhos, parecidos com os de uma criança. A animação te dá a possibilidade de remodelar a realidade; você pode justapor imagens para criar uma nova realidade, que exagera a corajosa percepção de mundo de Gillian, e, ao mesmo tempo, retém sua essência verdadeira.

Alexandra, seu interesse por bonecas de papel aparece em The Tale of the Right Hand of Spider Lil. Como vocês definiriam o projeto: um documentário fictício, um experimento sobre as lendas ou puro entretenimento?
O objetivo central de The Tale of the Right Hand of Spider Lil é deixar o espectador tomar suas próprias decisões. Na parte interativa do projeto, o espectador terá a oportunidade de obter comentários paralelos de vários “especialistas”, como historiadores, biólogos e psicólogos criminalistas, e de ler diretamente registros de arquivo digitalizados, como listas de presos transportados, diários e jornais da década de 1820, correspondência oficial do período, etc. Haverá “evidências” suficientes à disposição do espectador (que conseguir encontrá-las) para que ele tenha condições de fazer sua própria apreciação de se The Tale of the Right Hand of Spider Lil é um documentário sobre um fato ou uma lenda urbana gótica australiana.
Gostamos de pensar que o projeto é uma experiência imersiva, não-linear, interativa, de múltiplos suportes e não-tradicional, e que novamente cria realidades possíveis através de meios muito mesclados, em uma abordagem tátil reminiscente de Revolving Door. Isso, aliado à riqueza de material histórico sobre as origens sórdidas da Austrália como uma nação que teve início a partir de uma série de colônias penais britânicas, nos levou a um gênero que pode ser descrito como “gótico australiano”, que é puro entretenimento com uma base factual.

Que outros projetos vocês estão desenvolvendo agora?
O trabalho mais recente – enquanto damos andamento a várias atividades com o objetivo de conseguir recursos para produzir Spider Lil – tem o título provisório de Gunya Girls. É outro documentário que mistura diversas linguagens, desta vez com o olhar voltado para uma prisão feminina juvenil chamada Winlayton. É a história pessoal de quatro décadas de mulheres que foram presas nesse lugar – incluindo Alex. Combina experiências narradas e materiais de arquivo, fotografias, desenhos e animação. O documentário nos fala do enorme impacto que essa experiência teve nas poucas mulheres que passaram por lá e ainda vivem – o que é, em si, algo desconcertante. A história de Alex é uma procura por passagens perdidas de sua infância, a busca de algumas boas memórias para substituir as lembranças ruins que ela mantém de maneira muito vívida. Alex luta para entender quem ela é e qual é o seu lugar no mundo, e é através dos vários projetos em múltiplos meios nos quais embarcamos juntos que esperamos que algumas dessas respostas algum dia sejam encontradas.